Ser surpreendente

Publicado em 11 de setembro de 2015 às 15h56
Atualizado em 11 de setembro de 2015 às 16h00

Por Ivanaldo Mendonça — Em sua cidade de origem Ele não pode realizar nenhum milagre. A passagem bíblica, registrada no Evangelho Segundo Marcos, referindo-se à rejeição de Jesus por seus parentes e amigos, cunhou a expressão: “Um profeta só não é estimado em sua pátria”, popularmente traduzida como “santo de casa não faz milagre”. Os parentes e amigos de Jesus não reconheceram Nele a presença do Deus; mentes, corações e espíritos estavam fechados. Deus não invade, pede licença, submetendo-se à lei que Ele mesmo criou: o respeito à liberdade.

Embora admiradas com o que viam e ouviam: “De onde ele recebeu tudo isso? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”, optaram por aderir, unicamente, às referências físicas, materiais e parentais que envolvem a realidade jesushumana de Jesus: “Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?”. Deixaram de ir além e alçar altos voos, contentando-se com o básico, o óbvio, o que todo mundo pensa, fala, sente e vê.

Mais que imaginamos esta realidade faz-se presente em nossas vidas. Escravos da mesmice, vícios e manias, dependentes de esquemas mentais, limitados por referências físicas, históricas, emocionais, institucionais, culturais e tantas outras, determinados a ser, absoluta e unicamente ‘assim’ ou ‘assado’, fechamo-nos á todas as outras possibilidades; optando por ‘só isso’ e/ou ‘só aquilo’, deixamos de ser ‘mais que isso’ e/ou ‘mais que aquilo’, sobretudo, para melhor.

Em relação às pessoas, corremos o risco de aprisioná-las em nossos modelos mentais, preconceitos, vícios e manias pessoais, familiares, institucionais e sociais. Expressões do tipo: “Fulano? Eu o conheço, ele é assim…”, “Nem tente falar com ele…”; “Aquele não tem jeito…” tentam, a todo custo, impedir que o outro nos surpreenda, assim como fizeram os parentes e amigos de Jesus. Bastamo-nos às nossas referências, compreensões, experiências, maximizando-as e tornando-as leis irrevogáveis em relação aos outros, sabotando iniciativas de mudança e superação.

Não permitamos que os limites de nossas auto-referências tornem-se obstáculos! Não imponhamos os limites de nossas auto-referencias aos outros! Não acolhamos tentativas de sabotagem à nossa caminhada. Ser surpreendente significa escandalizar, positivamente, antes de tudo a si próprio, permitindo-se ser, cada dia, melhor. Ser surpreendente significa escandalizar-se, positivamente, com atitudes surpreendentes do outro. Sejamos surpreendentes!

Ostras-e-a-perola

Ivanaldo Mendonça, Padre, Pós-graduado em Psicologia, [email protected]

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