A Passeata, Antonio Prata: “Ninguém está entendendo nada”

Publicado em 19 de junho de 2013 às 13h52
Atualizado em 19 de junho de 2013 às 13h52

Por Antonio Prata, escritor, Folha de S.Paulo — Tinha punk de moicano e playboy de mocassim. Patricinha de olho azul e rasta de olho vermelho. Tinha uns barbudos do PCO exigindo que se reestatize o que foi privatizado e engomados a la Tea Party sonhando com a privatização de todo o resto. Tinha quem realmente se estrepa com esses 20 centavos e neguinho que não rela a barriga numa catraca de ônibus desde os tempos da CMTC. (Neguinho, no caso, era eu). Tinha a esperança de que este seja um momento importante na história do país e a suspeita de que talvez o gás da indignação, nas próximas semanas, vá para o vinagre.

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Sejamos francos, companheiros: ninguém tá entendendo nada. Nem a imprensa nem os políticos nem os manifestantes, muito menos este que vos escreve e vem, humilde ou pretensiosamente, expor sua perplexidade e ignorância.

Anteontem, depois da passeata, assisti ao “Roda Viva” com Nina Capello e Lucas Monteiro de Oliveira, integrantes do Movimento Passe Livre. Ficou claro que, embora inteligentes e bem articulados, eles tampouco compreendem onde é que foram amarrar seus burros. “Vocês começaram com uma canoa e tão aí com uma arca de Noé”, observou o coronel José Vicente. Os dois insistiram que não, o que há é um canoão, e as mais de 200 mil pessoas que saíram às ruas no Brasil, segunda-feira, lutavam por transporte público mais barato e eficiente. A posição dos ativistas de não se colocarem como os catalisadores de todas as angústias nacionais e seguirem batendo na tecla do transporte só os enobrece –mas estarão certos na percepção?

Duzentas mil pessoas de esquerda, de direita, de Nike e de coturno por causa da tarifa?

“Por que você tá aqui no protesto?”, perguntou a repórter do “TV Folha” a uma garota na manifestação do dia 11: “Olha, eu não consigo imaginar uma razão para não estar aqui, na verdade”, foi sua resposta. Corrupção, impunidade, a PEC 37, o aumento dos homicídios, os gastos com os estádios para a Copa, nosso IDH, a qualidade das escolas e hospitais públicos são todos excelentes motivos para que se saia às ruas e se tente melhorar o país –mas já o eram duas semanas atrás: por que não havia passeatas? Será porque a chegada do PT ao poder anestesiou os movimentos sociais, dificultando a percepção de que o Brasil vem melhorando, melhorando, melhorando e… continua péssimo? Ou será porque agora o Facebook e o Twitter facilitam a comunicação?

Se as dúvidas sobre as motivações –que brotam do solo minimamente sondável do presente– já são grandes, o que dizer sobre o futuro do movimento? Marchará ou murchará? Caso cresça: conseguirá abaixar a tarifa? E, no longo prazo, terá alguma relevância? Mais ainda: adianta ir às ruas, fazer barulho? Ou a própria passeata extingue o impulso de revolta que a criou e voltamos todos para o mundinho idêntico de todos os dias, com a sensação apaziguadora de que “fiz a minha parte”?

Não tenho a menor ideia, estou mais confuso que o Datena diante da enquete, mas num país injusto como o nosso, em que a única certeza parecia ser a de que, aconteça o que acontecer, o Sarney estará sempre no poder, as dúvidas dos últimos dias são muitíssimo bem-vindas.

antonio prata

Antonio Prata é escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles “Meio Intelectual, Meio de Esquerda” (editora 34). Escreve às quartas na versão impressa de “Cotidiano”.

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8 comentários

  1. Mário disse:

    É muita cara de pau não saber o motivo dos protestos. Digo uma coisa, é por muito mais de 0,20 numa passagem de ónibus, agora tem gente da imprensa que por motivos sabidos ou não insiste em dizer de passagem de onibus

  2. jose matuto disse:

    e muita gente que nao trabalha e gente que e muito bem de vida da clace media e alta que esta neças paciata porque quem trabalha nao pode perder dias se nao perde o emprego ok analiza portras e politica

  3. Heitor Monteiro Barbosa disse:

    Eu não diria que a questão é financeira, ou que seja uma questão de quem anda ou não de ônibus.
    O brasileiro têm assistido diariamente a sociedade se afundar em uma violência crescente, em uma educação de péssima qualidade, em uma saúde que está na UTI há tempos, impunidade, corrupção, e por aí vai (esta lista poderia se extender muito mais).
    Cada integrante dos protestos tem um motivo particular, ideológico ou político para estar lá gritando.
    É claro que como em qualquer situação, existem os oportunistas, os vândalos, e demais imbecis que mancham o propósito da “marcha”.
    Alí nós vemos pessoas que protestam pela PEC 37, pelo “FORA RENAN”, movimento LGBT, defesa dos animais, MCC, contra os gastos da copa, contra a situação política, educação… e por aí vai de novo; mas faltava alguém para “puxar a fila” e por coincidência foram os 0,20 centavinhos que detonaram este barril de pólvora… assim como na Revolução Francesa, o mesmo barril (insatisfação popular) foi detonado pelo preço do pão.
    O que realmente importa é

  4. Heitor Monteiro Barbosa disse:

    … O que realmente importa é a pretensão do movimento, que é a de “curar as mazelas” que há muito tempo vem fazendo o povo brasileiro sofrer.

  5. Mário disse:

    Lido e relido o texto. Quero dizer que minha opinião continua a mesma. Sabem sim o motivo de tanto protesto, 0,20 foi a gota que trasbordou o copo. Vimos coisas erradas em cidades, estados e união. Superfaturamento em tudo ultimamente em estádios. Quando venderam a copa para o brasileiro falaram em estadios num valor que ficou três vezes mais caros, falaram em melhoria em aeroportos que não vai acontecer, melhorias em vias públicas que não vai acontecer, tudo isso cansa.

    Ai digo que tem gente da imprensa que por motivos sabidos ou não insiste em dizer na passagem de onibus, tentando diminuir o movimento. Prestem atenção tem muita gente que não usa transporte público está na rua protestando.

    VAI BRASIL MOSTRA SUA CARA…VAMOS VALORIZAR O QUE O BRASIL AINDA TEM DE BOM QUE É SEU POVO TRABALHADOR!!!

  6. Otávio Louzada disse:

    Pra mim as dúvidas também são bem vindas, espero que a manifestação marche e se torne algo relevante.

    Os 0,20 foram a gota d’água, o motivo pra tudo começar e o que estava no interior das pessoas eclodir pra superfície, muitos estão ali pra apoiar apenas, outros defendem alguns ideias, eu por exemplo não aceito e nem me sinto bem com a PEC 37 muito menos com Feliciano que é presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) por X razões e Y motivos, no entanto não possuo tempo para protestos que na minha humilde opinião deveriam ser feitos em Brasília.

    As redes sociais contribuem demais para ver o que está certo e o que está errado (lembrando que a definição de certo ou errado muda de pessoa pra pessoa), muitas pessoas das passeatas saíram das redes sociais e vieram protestar no mundo virtual e eu acho isso ótimo, prova que o povo ainda vive, respira, enxerga, vê, sente, que o povo não vai bater palmas pra todos e pra tudo, que de alguma forma a atitude do governo de injetar dinheiro na economia desvairadamente e logo após querer controlar a inflação sugando de volta pelo orifício errado, será retaliada.

    Essa história vai muito além, é muito mais profunda do que apenas a superfície, se começassem a seguir o fio que leva direto ao sistema, geraria uma carnificina.

    Essa foi a minha opinião.

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