Exclusivo! O que falta para que o menor assassino e o seu comparsa sejam indiciados pela morte do motorista – e novos detalhes

Publicado em 04 de março de 2011 às 22h10
Atualizado em 04 de março de 2011 às 22h26

Falta muito pouco para que o delegado titular de Olímpia, João Brocanello Neto, indicie o menor D.V.C.S., de 17 anos, e o seu comparsa André Amorim da Silva, “Neguinho”, de 27 anos, ambos de Rio Preto, em crime de latrocínio (roubo seguido de morte) pelo assassinato à queima-roupa, e com um tiro na boca, o motorista Francisco Basílio Ruiz, de 50 anos, ocorrido no dia 1 de fevereiro deste ano.

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O terceiro elemento envolvido no crime, Alexandre dos Santos, de 31 anos, o “Carroça”, que veio socorrer o veículo de ambos em Olímpia, sem ter conhecimento do crime, poderá servir de testemunha de acusação, do Ministério Público, ou ser processado em crime de favorecimento, mas, neste último caso, a pena não passaria de uma cesta básica, sendo conveniente que auxilie na condenação dos verdadeiros culpados, segundo revelou hoje, com exclusividade, o delegado Brocanello para este Portal.

Tivemos acesso aos três depoimentos (leia nesta matéria) e outras informações relevantes sobre o (quase) desfecho do crime que abalou a cidade.

O inquérito está praticamente concluso. Faltam apenas dois documentos para que, de fato, o delegado João Brocanello Neto possa concluir o que ele, com fé e humildade, classifica como “benção divina”, ou seja, o desvendamento do caso 16 dias após o crime (ele deu uma entrevista coletiva praticamente revelando detalhes e envolvidos no dia 17 – leia aqui) e as facilidades que obteve com o trabalho de sua equipe de investigação, especialmente do investigador Lourenço, e do entrelaçamento de informações obtidas pelos colegas de Barretos a Rio Preto: “Eu tinha a certeza de que os criminosos não eram da cidade”, revelou ao Portal hoje.

QUEBRA DE SIGILO E MAIS PERÍCIA

DSC069811 Um desses documentos faltantes é a quebra do sigilo telefônico do Posto Hiroshi da vicinal Governador Ademar Pereira de Barros e do orelhão próximo: “Preciso apenas confirmar as versões do menor e do ‘Neguinho’, de que realmente fizeram as ligações para ‘Carroça’, apenas para confirmar”, disse Brocanello.

Outro documento são seis perguntas que o delegado enviou para esclarecer melhor o laudo necroscópico IML 399/2011 assinado pela médica legista Anésia M.M.S. Ribeiro no mesmo dia do homicídio. Ressalte-se que o projétil que matou o motorista Francisco Ruiz foi de calibre 22, segundo constatou o Instituto de Criminalística, da Superintendência de Polícia Técnico-Científica, dois dias após o crime.

O delegado Brocanello, não satisfeito com o laudo necroscópico, quer ainda saber, para poder concluir o seu inquérito com mais fundamentação científica: “Qual a altura e peso do cadáver? O tiro foi a curta, média ou longa distância? Constatou sinal de ‘buracos de mina’ ou alguma queimadura no rosto ou boca? A trajetória do projétil foi retilíneo, frontal e na horizontal, ou em aclive ou declive? O material estranho quebrou algum dente? O cadáver foi fotografado? Em caso positivo, remeter a esta Unidade Policial”.

Quanto ao tiro, a médica perita limitou-se a concluir que “foi um ferimento pérfuro-contuso em região do palato (posterior) à direita, tiro de frente, apresentando lesão em partes moles, próximo à coluna cervical superior”, e que “houve lesão em coluna cervical (fratura), local em que foi retirado o projétil de arma de fogo, o qual foi encaminhado para perícia (lacre SPTC 0046592)”, além de outros exames. Porém, Brocanello quer mais detalhes do tiro e da situação do corpo e boca da vítima.

DEPOIMENTO DO MENOR: O CRIME EM DETALHES

Em seu depoimento tomado no dia 16 de fevereiro, às 10h21 (confirmando a notícia exclusiva deste Portal no mesmo dia), o menor D.V.C.S., 17 anos, acompanhado pelo advogado Marcelo Alves de Oliveira, ambos de Rio Preto, contou em detalhes a sua participação e do comparsa “Neguinho” e como surgiu o vendedor de lanches, também de Rio Preto, “Carroça” para dar uma carona emergencial, sem tomar ciência do crime ocorrido momentos antes.

O menor contou que morou em Uberaba (MG) por uns cinco ou seis anos, quando tinha idade entre 10 a 16 anos, depois passou a morar em Rio Preto. Ainda em Uberaba se envolveu em diversas ocorrências, entre elas direção perigosa (sem habilitação), usuário de drogas (art. 33 da Lei de Tóxicos), mas que nunca ficou internado em Febem ou similar. Confessou, também, que, nesse ano, em Granada (SP), teve ocorrência registrada do artigo 155 tentado (tentativa de furto), salientando que foi até àquela cidade exatamente para furtar.

Já em Rio Preto, D.V.C.S. afirmou que não se envolveu mais em ocorrências criminais e que é frequentador de uma praça, no bairro Caparroz, onde tem aparelhos de academia, joga bola e conversa com amigos. Numa dessas ocasiões, há cerca de dois meses (dezembro), conheceu um rapaz de apelido “Neguinho”, que acha que é maior de idade, descrevendo-o como 1,81 metro de altura, magro, cabelo baixo preto, com a cor mais escura que a sua, que usava calça jeans e uma camiseta listrada, com um boné, e que passaram a se encontrar sempre na citada pracinha de Rio Preto.

O menor, que usa cocaína, disse que então novo amigo, “Neguinho”, usa maconha. Daí, no dia 1 de fevereiro, naquela pracinha, decidiu convidar “Neguinho” para roubarem celular, dinheiro “e outras coisas” e, para tanto, pretendiam ir para Barretos.

Para ir a Barretos usou um veículo Logus, cor chumbo, duas portas, rebaixado, de sua propriedade e de um amigo chamado “Leo” (que acabou indo embora para São Paulo entre 20h e 20h30). O menor revelou que veio com um revólver calibre 22, cor preta, seis tiros, e que o comparsa “Neguinho” não veio armado, e estava dirigindo o Logus.

Foi quando, no trevo de Olímpia, através de Tamanduá, mudaram os planos e decidiram entrar na cidade, conta D.V.C.S. Disse que passearam por várias ruas e avenidas à procura de uma vítima e, daí, passaram defronte a um bar quando avistaram um homem em pé, com um copo na mão, na calçada, vendo que ele tinha no pescoço corrente, relógio, imaginaram que tal sujeito (Francisco Ruiz) também tinha dinheiro, celular e outros pertences, foi quando deram a volta no quarteirão e ficaram à espreita da vítima, estacionando o Logus debaixo de uma árvore, local meio escuro.

franciscoruiz1 O menor conta que, minutos mais tarde, o motorista olimpiense saiu do bar com o seu carro prata e, após alguns quarteirões, virou à esquerda numa rua de pedra e surgiu logo a sua residência, já posicionando o carro sobre a calçada com a pretensão de entrar no portão do imóvel.

D.V.C.S. revela que “Neguinho” passou por detrás do carro da vítima e deixou-o na esquina. Entre o carro da vítima e ele tinha um caminhão, que deu cobertura para que não fosse visto e também ao carro do comparsa. Ato contínuo, correu em direção ao motorista, que ainda estava dentro do carro, pois aguardava o portão abrir, se aproximou e anunciou o assalto, apontando o revólver calibre 22: “Dá a carteira, o celular e a corrente no pescoço”.

Para a surpresa do menor, segundo relata em seu depoimento, “mesmo com a arma apontada em sua direção, a vítima desceu do automóvel, já dando socos e começou a gritar dizendo que não levaria nada”, foi quando percebeu que o homem estava bêbado. Na sequencia, o menor disse ter se afastado um pouco e novamente apontou a arma falando para ele parar, mas a reação da vítima foi levar a mão na cintura, simulando que teria também uma arma, foi quando D.V.C.S. confessou que se “apavorou e deu o tiro na pretensão de assustá-lo, acertando em seu ombro”.

“Não queria matar, apenas ter tempo para fugir”, disse o menor ao delegado Brocanello e na presença de seu advogado rio-pretense. Ele viu o homem caindo com ferimentos, se apavorou, não pegou nenhum pertence dele, como o seu comparsa não estava próximo dali, resolveu pegar o carro do motorista Francisco Ruiz, dando ré, desceu a rua, passou ao lado do caminhão e entrou por uma rua de pedra. Seguiu com o carro mais umas duas ruas e virou à direita, quando então ultrapassou o seu comparsa “Neguinho” que estava parado. Resolveu seguir, então, com o carro da vítima para não ser percebido que estavam juntos, tendo o colega o acompanhado com o Logus.

O adolescente contou que, na sequencia, parou o carro do homem que havia matado, quando então o comparsa, que vinha logo atrás, também parou, nem chegando a desligar o motor para que o ele pudesse entrar no Logus. Empreenderam fuga, transitando por algumas ruas da cidade, até que chegaram num posto de gasolina, que fica defronte a um estabelecimento chamado “Valtra”, “que mexe com tratores”, conta D.V.C.S. Deixaram, então, o Logus uns dois quarteirões acima daquele ponto, próximo “de umas torres”, foi quando “Neguinho” falou que o carro estava com problema na roda.

Segundo o depoente menor, ele decidiu pedir ajuda para um colega chamado “Carroça” (um disque-entrega de lanches) e que, inicialmente, usou o celular de “Neguinho” e, depois, falaram de um orelhão localizado entre a loja Valtra e uma borracharia, efetuando diversas ligações. Disse que já tinha ajudado o “Carroça” naquele estabelecimento de lanches. Daí, pediu-lhe que ele trouxesse um pneu, mentindo a ele que tinha vindo à Olímpia “para ver mulher”, mas o amigo, inicialmente, não o atendeu, demorando no retorno.

O adolescente insistiu com o amigo do disque-lanche, de Rio Preto, umas duas vezes e, somente por volta da 1h, surgiu “Carroça” trazendo um pneu. Mas, segundo conta o menor, “Neguinho” decidiu mudar a versão do defeito no carro, dizendo que “o problema é de motor”. Daí, pediram carona para “Carroça”, para voltar a Rio Preto, o que foi feito. O amigo só veio a saber o que, de fato, tinha acontecido naquela cidade.

“Carroça chegou a reclamar, pois poderia ser envolvido em crime que tinham cometido aqui em Olímpia”, relatou o menor em depoimento. Em Rio Preto, “Neguinho” foi deixado na praça Caparroz e o menor em sua casa. No caminho, jogou a arma na represa e, ao chegar em casa, confessou à sua mãe o ocorrido, mas que ela não acreditou, inicialmente.

No dia do crime, o menor trajava calça jeans, sapato preto, boné preto, camiseta preta (nos ombros, era de cor branca) e com a inscrição “Panic” em vermelho. Já “Neguinho” usava camiseta listrada, calça jeans, boné vermelho e preto.

Finalmente, D.V.C.S. disse que a arma que usou no crime era de sua propriedade, tendo-a adquirido ainda quando morava em Uberaba, comprado em conjunto com um colega, já morto, que vendia drogas. A arma, no dia do crime em Olímpia, estava municiada com seis balas. Quando convidou “Neguinho” para realizar a ação criminosa ficou combinado que era o menor quem renderia a vítima com essa arma.

A ARMA: “NEGUINHO” BRIGA COM O MENOR

Como o advogado do menor permitiu que ele confessasse o que de fato tinha ocorrido, e sem prévia combinação das perguntas com o delegado, a última pergunta feita por Brocanello foi quanto à arma e se “Neguinho” tinha conhecimento dela. A resposta foi positiva (veja parágrafo anterior).

Consta que, posteriormente, “Neguinho” se desentendeu com o menor, inclusive não concordando que o mesmo advogado o trouxesse para depor em Olímpia (ele trouxe Carlos Roberto Parise). Em Olímpia, negou que soubesse da arma e até da intenção de assaltar do menor, já que ele tinha dito, para vir à Olímpia, que tinha facilidade em abrir carros.

Mas, o delegado está convicto de que, de fato, “Neguinho” será, da mesma forma que o menor, indiciado em latrocínio, restando a dúvida sobre “Carroça”: ou testemunha de acusação contra o menor e o seu comparsa, a serviço do Ministério Público, ou incurso em crime de favorecimento, mas de menor potencial ofensivo, restando pagar à Justiça apenas uma cesta básica. “Acredito que ele vá cooperar com a Promotoria na acusação, é o mais lógico”, conclui o delegado João Brocanello Neto.

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