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O último pedaço do menino pobre

Por Antonio Luiz Pimenta Laraia — No feriado de 1º de maio entreguei-me ao pensamento. Como é delicioso pensar em coisas belas! Comecei pelo “dolce far niente” ao lado de minha mulher Claudia com quem brindava um bom vinho do Alentejo. “Ficar à toa” é fundamental para pensar. Da sacada vi a sacudida cidade em silêncio. O bacalhau do almoço fazia água na boca. Em uma revista, caiu-me aos olhos um retrato do infante Dom Henrique.

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Comecei bem! Portugal, vinho do Alentejo, bacalhau e o Navegador de Sagres. Só faltava Camões. Fui buscar… e peguei um compêndio que fiz dos “Lusíadas” para defender oralmente uma tese sobre “a psicologia do povo português na época das navegações”.

Ler e “tri-ler” (gaúcho) “Os Lusíadas” é sempre emocionante. É a erudição e a beleza narrando história nobre e edificante. Porém, o ponto alto da obra é a luz sobre os feitos lusos e as atribuições morais que deles ressalta. Camões “brinca” com ideias jamais expressas quaisquer línguas.

O tema é a viagem de Vasco da Gama; o prisma é a epopeia portuguesa.

Ao justificar as navegações, por exemplo, o poeta escreve que “não sofre o peito forte usado à guerra, não ter inimigo já a quem faça dano; e assim não tendo a quem vencer na terra, vai cometer as ondas do oceano”.

Fantástico! Esse é o português! Não o padeiro! Também não o “conselheiro”, de personalidade cortada pela tesoura de alfaiate sem talento, como fala Eça de Queiroz. Português é determinado, forte, vencedor e ousado. Luso tacanho é português que rejeitou a luz.

E veja meu leitor, como Camões vê essa luz que fez Portugal dominar o século XVI: “Mas, entanto que cegos e sedentos andais de vosso sangue, ó gente insana, não faltarão Cristãos Atrevimentos nesta pequena casa Lusitana: de África tem marítimos assentos; é na Ásia mais que todas soberana; na quarta parte nova (América) os campos ara; e, se mais mundo houvera, lá chegara.

Li essa estrofe, inspirei forte o meu bacalhau, acariciei a garganta com um gole de vinho e pensei: como nós, brasileiros, precisamos ter sede de realizar nossa vocação cosmopolita, própria de um povo nascido da prodigiosa mistura pacífica de pessoas de todas as raças, coisa única no mundo! Vocação que não é a de dominar, mas de acolher e ensinar a todos os povos o sentido da generosidade e da paz, que bem pode ser expressa pelas palavras de Cristo: “bem aventurados os brandos e pacíficos, porque herdarão a terra”.

Essa herança é nossa. É preciso despertar a Nação. É preciso virtude e retidão para eleger dirigentes dignos do Brasil. Homens fortes, abnegados e virtuosos. Do contrário, nos sobrará outra estrofe dos Lusíadas: “que, vindo o Castelhano devastando as terras sem defesa, esteve perto de destruir-se o Reino totalmente, que um fraco Rei faz fraca a forte gente”.

O interfone tocou. Um menino pediu-me comida. Claudia fez um prato de bacalhau e levou para ele. Da sacada o vi pegar o prato, agradecer e comer. Doeu! E dei ao menino mais um presente: minha prece para que aquele pedaço de bacalhau fosse o último que ele comesse enquanto pobre e o primeiro dentre incontáveis outros como homem digno, feito à imagem de Deus. Voltei a pensar no Brasil e construí o verso de Camões no sentido inverso: – Meu Deus, dê-nos “um forte Rei que faça forte a fraca gente”.

Antonio Luiz Pimenta Laraia é especialista em Direito Civil pela UNISUL – [email protected]

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