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O Barão de Jerusalém

Por Antonio Luiz Pimenta Laraia – Beleza, verdade e bondade são tão presentes nos atos humanos que às vezes desaparecem. Pensei nisso ao ler um artigo do Dr. Robledo, juiz aposentado de Rio Preto, diante de quem exerci a advocacia muito tempo: “Aquele que anda a pé”. Afastando-se do rasteiro ele convidou os leitores para admirar a arquetipia dos gestos, sobre os quais discorreu. Como é belo não se deixar prostituir pela vaidade, despojar-se do cargo e fazer questão de ser quem é: humano e andando a pé. Quem leu o artigo viu que as palavras têm alma. O autor vive a postura que descreveu. O Juiz Robledo, investido do magistral poder de julgar – que põe o homem ao lado de Deus –, sempre foi um homem que “andou a pé”.

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Um dia conversarei mais com a plêiade que me acompanha, sobre o caráter da investidura do juiz, não cogitado hoje por um “tipo conselheiro” – diria assim Eça – que usa o precioso tempo de lazer para ficar abotoando o controle da TV bisbilhotando canais, sem concentrar-se em nada, bebendo cerveja e bestializando o que vê: “não tem nada de bom nessa coisa”! Feliz quando vem futebol. Aí vibra, xinga e filosofa. “Y asi pasan los dias…”

O verso de “Quizás” (fantástico na voz de Nat King Cole) me fez associar Investidura e Justiça. Veio-me Gardel: “Y todo a media luz”. Entretanto… não foi a deliciosa “media luz” romântica, que lança minha alma genuflexa de amor por minha mulher Claudia, que associei no momento. Desta vez “media luz” veio cruel e me pôs diante da imundície de ambientes corruptos onde gente má se reúne, à luz bruxuleante, para tramar e confabular como morder dinheiro do povo, esperança de dignidade do cidadão que ainda não tem ensino básico, que padece no SUS (Lula diz que é modelo – ele usa?) e que, por falta de saneamento, ainda morre de tifo.

O crime desmascarado na região pelos destemidos Promotores de Justiça, e escancarado corajosamente por repórteres e redatores –imundo por natureza – não para, pois, na formação de quadrilha e corrupção de agentes públicos (difícil saber quem corrompeu quem…), mas vai além: aliena e mata, porque o furto do dinheiro público esgota o Estado e incapacita a implantação de saneamento básico e a construção e otimização escolas e hospitais. Ao abastado não faltam recursos. Ao pobre sobra obscurantismo e morte, que pelo esgoto a céu aberto, quer pela fila do SUS.

Mas o sucesso da operação “fratelli” só será fecunda quando extirpado for o “tipo conselheiro” bebedor de cerveja cabeça-de-trave. Ele elege os corruptos. Não pensa; põe fé na demagogia e se enrabicha no político malcheiroso querendo feder-se um pouco. Não têm nada com o homem consciente, que pode ser enganado… só uma vez. O “cabeça-de-trave” gosta de ser enganado.

Sem “conselheiros”, caro leitor, elegeremos “homens que andam a pé”. “Quizás” um Godofredo de Buillon, exemplo de magnanimidade, seja o arquétipo do homem que “anda a pé”. Godofredo comandou a Primeira Cruzada. Vitorioso sobre os islamitas foi aclamado Rei de Jerusalém. Rejeitou a coroa; aceitou o título de Barão. “Não vou cingir ouro onde Jesus foi coroado de espinhos”. A grandeza venceu a vaidade; o Barão de Jerusalém era homem que andava a pé. Onde estão eles hoje? Infelizmente, com exceções, nossos homens públicos preferem carruagens… puxadas por dinheiro público.

Busquemos homens que andam a pé e voltemos a pensar no amor ao ouvirmos “y todo a media luz”…

* Antonio Luiz Pimenta Laraia é especialista em Direito Civil – UNISUL – [email protected]

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