Sobre o Perdão

Publicado em 30 de janeiro de 2014 às 15h01
Atualizado em 30 de janeiro de 2014 às 15h18

Por Ivanaldo Mendonça — Perdoar é uma necessidade humana. O exercício do perdão compara-se à digestão: ingerir, digerir, reter o necessário e eliminar as substâncias prejudiciais é um processo natural que sustenta e mantém com qualidade e equilíbrio a vida humana. Assim, compreende-se a necessidade e importância de que, em cada dimensão da existência humana (físico-material, mental, emocional e espiritual) e nas relações que a envolvem (consigo, com Deus, com os outros e com a natureza), busquemos o equilíbrio que resulta na felicidade.

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Mais que um movimento, ato isolado e circunstancial restrito à ordem do fazer ou não fazer, o Perdão está relacionado às raízes de nossa existência, ao Ser. Este exercício, em seus dois movimentos básicos, oferecer perdão e receber perdão não pode ser entendido nem alcançado por si só. A raiz do Perdão é o Amor: o máximo desejo do bem a alguém ou alguma coisa. O Amor nos move a, acima de tudo, considerar o outro, o Ser Amado, acima dos erros que cometeu, comete ou cometerá. Mais que o desvio em relação a um conjunto de regras, errar é ferir o Ser humano em sua integridade e pessoal e relacional.

É comum à criança infringir regras que, embora não compreenda, mais a beneficiam do que prejudicam. Embora os pais esbravejem, falem exageradamente e quando necessário dispensem palmadas e punições, mesmo sabendo que está errada e talvez muito errada, acolhem-na com um abraço. Como assim, abraçar quem erra? Isso mesmo! Aquele abraço apertado e silencioso expressava: ‘Filho não concordo nem aceito o que você fez. Isto lhe trará consequências. No entanto saiba que te amo e que sempre estou contigo’.

Por Amor e não por razões unicamente lógicas, que exigiriam outras reações, os pais deixam claro que não confundem a criança com os erros que ela comete, não amam o ‘pecado’ mas amam o ‘pecador’. A atitude dos pais não deve ser entendida como concordância, aceitação ou indiferença ao erro do filho. Na hora e da forma certa cada coisa deve ser colocada em seu devido lugar e cada um deve arcar, responsavelmente, com as consequências de seus atos, e isto se aprende desde criança, guardadas as devidas proporções.

Dentre outras coisas, dificulta-nos exercitar o perdão: imaginar que o mundo é do tamanho da nossa cabeça; ignorar que existem realidades diferentes da nossa, olhar apenas com a cabeça (lógica) e não com o misericórdia (o coração sadio); o dualismo pragmático: ou isso ou aquilo, como se não existisse outra possibilidade; o radicalismo: ou oito ou oitenta, desconsiderando que o equilíbrio está no meio; o vício de procurar culpados, julgar, condenar e punir ao invés de buscar soluções para a superação das dificuldades; confundir a pessoa com os erros que ela comete. O exercício do Perdão é difícil, mas só depende de nós. Perdoar sem Amar é impossível, pois mais que um movimento da cabeça, a arte do Perdão uma atitude do coração. Amemos acima de tudo!

* Ivanaldo Mendonça, Padre, Pós-graduado em Psicologia – [email protected]

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