O Padre, este ‘balde humano’

Publicado em 07 de agosto de 2015 às 12h29
Atualizado em 07 de agosto de 2015 às 12h30

Por Ivanaldo Mendonça — Após a missa o padre fora acometido com veemência. Alegava o queixante que a homilia fora especialmente dirigida a ele. Definindo-se como esclarecido, não leigo e capaz de ler as entre linhas, munido de verbetes, citações bibliográficas e notas de rodapé, acusava o Padre de hipocrisia. Considerando a vivência da fé de forma livre, responsável e madura, assim como a edificação espiritual do Corpo de Cristo, a Igreja, este fato sugere algumas considerações.

padre

Na Igreja, todo aquele que não pertence à hierarquia (bispo, padre e diáconos) é leigo. Aqui, o termo leigo não se aplica na forma positiva, por aquilo que é (sinônimo de desconhecimento e ignorância), mas por aquilo que não é. Não ser bispo, padre ou diácono, na Igreja, implica ser leigo. O conceito não exprime valoração, apenas especifica uma categoria, dentro da totalidade do Povo de Deus, a dos fiéis leigos. São eles, os leigos, absoluta maioria, homens e mulheres que se doam de forma alegre e generosa testemunhando o Evangelho para além das paredes da Igreja. O nobre homem, esclarecido na gramática, porém inábil em conceitos eclesiásticos, ao contrário do que afirmara, na Igreja é, categoricamente leigo. Batizado, dignamente investido do sacerdócio comum dos fieis que nos configura a Cristo sacerdote, profeta e pastor, deveria orgulhar-se disso. Ao apresentar-se como não-leigo inferiu que seus irmãos e irmãs de comunidade fossem inferiores a ele, ou seja, leigos no sentido positivo, de que nada entendem, ignorantes.

Acusar, julgar e condenar a quem quer que seja revestido de parcialidade e verdades pessoais revela impulsividade, além de limitação no entendimento. O ministro, ordenado, o padre, não é proprietário da Palavra que prega, mas simplesmente porta-voz. Deus, em Jesus Cristo, Verbo encarnado do Pai, vem ao nosso encontro na Palavra revelada e escrita, chamada Sagrada Escritura; é Ele o dono da Palavra. O ministro anuncia o ideal da fé, a vontade de Deus. É necessário ter clareza sobre aonde se quer chegar, mesmo que falte muito. A homilia (que significa ‘conversa familiar’) de forma clara e objetiva interpreta a Palavra aplicando-a aos tempos atuais. O Padre não anuncia ele mesmo, o que pensa, o que vive ou deixa de viver, muito embora deva esforçar-se, sobremaneira, para dar testemunho de fé, tampouco diz o que as pessoas devem ou não fazer. O ministro simplesmente apresenta a Palavra que proclamada, interpretada, acolhida e interiorizada, possui força interpeladora por Si própria no coração de cada membro da assembleia.

Alucinatório imaginar que o Padre, sufocado pelo volume de afazeres, tenha tempo suficiente para sondar a vida de cada fiel para mirar a cada um da assembleia. O ministro fala para uma única pessoa: a comunidade reunida e, falando a todos, fala a cada um de forma direta. A interpretação da Palavra contempla a realidade concreta da vida das pessoas, suas luzes e sombras. Apenas quando acolhida com o coração a Palavra encontra espaço para confirmar o que há de bom, aprimorar o que pode ser melhor e eliminar o que não presta.

Não vamos à Igreja para ouvir o que gostamos, mas o que precisamos. Focado intencionalmente nos limites do Padre, que não obstante a árdua missão é apenas um ser humano, ignora-se que a grande maioria das pessoas saem das celebrações abastecidas, dispostas a considerar o que foi proposto pela Palavra proclamada, interpretada, rezada e comungada. Quem vai ou deixa de ir à Igreja por causa do Padre, assina atestado de laicidade no sentido positivo (ignorância) e imaturidade espiritual. Quanto a ir à Igreja ‘só’ porque se gosta é pior ainda! Igreja não é estádio de futebol, sala de cinema ou clube social. Á Igreja não vamos porque gostamos, vamos porque dela necessitamos. Ela, nossa mãe espiritual, como toda verdadeira mãe, corre o risco de ser mal interpretada, mas não deixa de dizer ao filho, tanto o que ele gosta e merece quanto o que precisa ouvir. Quantos filhos e filhas agradecem à Mãe-Igreja por tudo que lhes transmite através de seus ministros e o quanto esta experiência é essencial ao seu crescimento. Esquecera-se também o nobre homem, como esquecem tantos outros, de que quando as cosias apertam é a um Padre que ele recorre, que pelas mãos de um homem de Deus recebe o perdão e sob sua orientação exerce o discernimento.

Estancada a hemorragia de palavras o homem emudeceu. O Padre calmamente disse-lhe: “Meu filho, quando precisares de um balde humano para acolher seus vômitos de angústia e dor, conte comigo. Isso também faz parte da minha missão”. A homilia dirigida à comunidade reunida interpelou aquele homem com profundidade, revelando a força transformadora da Palavra, que o vulcão entrou em erupção e, para suportar tamanha voracidade, com amor e misericórdia, sustentado pelo Cristo Bom Pastor, ninguém como o Padre, este balde humano.

 

 

 

Ivanaldo Mendonça, Padre, Pós-graduado em Psicologia, [email protected]

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