Bispo Dom Milton envia circular aos fiéis rogando: “Pecador, sim. Corrupto, não”

Publicado em 10 de março de 2015 às 13h51
Atualizado em 10 de março de 2015 às 13h57

O Bispo Dom Milton Kenan Júnior, da Diocese de Barretos, da qual as paróquias de Olímpia fazem parte, enviou nesta terça-feira (10) Circular aos Fiéis destacando a corrupção, cerne principal do noticiário dos últimos tempos no País. “Pecador, sim. Corrupto, não”, assinala o religioso.

A íntegra desta crítica, profunda, por sinal, segue abaixo:

Nossa caminhada quaresmal prossegue rumo à celebração da Páscoa do Senhor! A cada ano, durante estes 40 dias, a Igreja é convidada a reviver o caminho de Jesus para Jerusalém, onde ele consumou a sua obra, através da sua Paixão, Morte e Ressurreição.

No espírito proposto pela Campanha da Fraternidade 2015: “Fraternidade: Igreja e Sociedade”, queremos confessar e expiar a triste chaga da corrupção que devasta as instituições políticas, financeiras e religiosas em todo mundo exigindo das autoridades e dos cidadãos um maior senso de justiça e espírito de reparação.

corrupcaoDiante das notícias, nestas últimas semanas, compreendemos que a corrupção há tempos deixou de ser uma ação de indivíduos e tornou-se um esquema que envolve governos, organizações, estatais, políticos, igrejas, etc. em todas as esferas das nações, levando a desvios assombrosos de dinheiro público que, recolhidos para atender as necessidades básicas da população, encontram seu destino nos bolsos e contas bancárias de alguns.

O Papa Francisco, diversas vezes, tem falado duramente contra a corrupção chamando governos e indivíduos a um exame de consciência. Num discurso às autoridades e corpo diplomático, em Manila (Filipinas), aos 16 de janeiro de 2015, Francisco fala da “firme rejeição de toda forma de corrupção que desvia recursos dos pobres”.

Em outubro do ano passado, dirigindo-se à Associação Internacional de Direito Penal, Francisco quando se refere à corrupção afirma que “há poucas coisas mais difíceis do que abrir uma fresta num coração corrupto: «Isso é o que acontece com aqueles que juntam riquezas para si mesmos, mas para Deus não são ricos» (Lc 12, 21).

Quando a situação pessoal do corrupto se torna complicada, ele conhece todos os subterfúgios para a evitar, como fez o administrador desonesto do Evangelho (cf. Lc 16, 1-8).

O corrupto atravessa a vida com os subterfúgios do oportunismo, com o ar de quem diz: «Não fui eu», chegando a interiorizar a sua máscara de homem honesto. É um processo de interiorização.

O corrupto não pode aceitar a crítica, desqualifica quem a faz, procura diminuir qualquer autoridade moral que o possa pôr em questão, não valoriza os outros e ataca com o insulto quem quer que pense de maneira diversa.

Se as relações de força o permitir, persegue todo aquele que o contradiz. A corrupção manifesta-se numa atmosfera de triunfalismo porque o corrupto se considera um vencedor. Naquele ambiente pavoneia-se para diminuir os outros. O corrupto não sente a sua corrupção. Acontece como com o mau hálito: dificilmente quem o tem se apercebe de tê-lo; são os outros que o sentem e que lho devem dizer.

Por este motivo, o corrupto dificilmente poderá sair do seu estado por remorso interno de consciência.

A corrupção é um mal maior que o pecado. Mais do que perdoado, este mal deve ser curado. A corrupção tornou-se natural a ponto de chegar a constituir um estado pessoal e social ligado ao costume, uma prática habitual nas transações comerciais e financeiras nas empreitadas públicas, em cada negociação que envolva agentes do Estado.

É a vitória das aparências sobre a realidade e do descaramento impudico sobre a discrição honrada. Contudo, o Senhor não se cansa de bater à porta dos corruptos.

A corrupção nada pode contra a esperança. Na homilia matutina, no dia 16 de junho de 2014, Francisco diz ainda que os pobres sempre pagam o preço da corrupção. Ele não se refere aos políticos e empresários, mas também aos eclesiásticos que não cumprem o próprio dever pastoral, para cultivar o poder.

A corrupção, explicou o Papa, «é um pecado fácil, que pode cometer a pessoa que tem autoridade sobre os outros, quer econômica e política, quer eclesiástica. Somos tentados pela corrupção. É um pecado fácil de cometer». De resto, acrescentou, «quando uma pessoa tem autoridade, sente-se poderosa, quase um deus». Portanto, a corrupção «é uma tentação diária», na qual podem cair «políticos, empresários e prelados». Mas — perguntou-se Francisco — quem paga pela corrupção? Certamente não quem paga «o suborno»: de fato, ele só representa «o intermediário».

Na realidade, «o pobre paga pela corrupção!», constatou o Pontífice. «Se falamos de corrupção política ou econômica, quem paga isto?», perguntou-se o Papa. «Pagam — disse — os hospitais sem remédios, os doentes que não são cuidados, as crianças sem escolas (…). E quem paga «pela corrupção de um prelado? Pagam-na as crianças que não aprenderam a fazer o sinal da cruz, não conhecem a catequese, não são cuidadas; os doentes que não são visitados; os presos que não recebem atenção espiritual».

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Enfim, são sempre os pobres que pagam pela corrupção: os «pobres materiais» e os «pobres espirituais». O Texto base da CF-2015 dedica quatro parágrafos sobre a corrupção (nn. 85- 88). Por causa da corrupção, diz o Texto base, nota-se “o declínio da confiança nas instituições políticas e na administração dos governos, na condenação e na prisão dos dirigentes e lideranças governamentais e partidárias” (n. 85).

Mas, afirma também que “o aprimoramento do processo político e a qualificação dos políticos e dos partidos requerem o empenho e a participação dos cidadãos conscientes e, por isso, dos cristãos. (…) A luta pela reforma política é a maneira de os cristãos se colocarem contra o difuso sentimento de decepção e descrença na política institucional que paira na sociedade” (TB n.88) Repito que no diálogo entre Igreja e Sociedade, em nossos dias, não pode deixar de haver da nossa parte um forte repúdio a toda forma de corrupção; mas, ao mesmo tempo, despertar em nossas comunidades para aquilo que o Papa Francisco afirma na Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”: “Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efetivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo.

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A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade porque busca o bem comum. Temos de nos convencer de que a caridade “é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também nas macro-relações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos.

Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno, instrução e cuidados sanitários para todos os cidadãos. E por que não recorrer a Deus pedindoLhe que inspire os seus planos? Estou convencido de que, a partir de uma abertura à transcendência, poder-se-ia formar uma nova mentalidade política e econômica que ajudaria a superar a dicotomia absoluta entre a economia e o bem comum social” (EG 205).

“Pecadores, sim. Corruptos, não!” afirma o Papa Francisco! Longe de nós toda forma de corrupção! Aproveitemos este tempo quaresmal para rever nossa conduta e examinar nossa vida para detectar toda forma de corrupção que espolia os pobres e, causa escândalo na Igreja, entre os que comungam a fé que recebemos dos Apóstolos.

Dom Milton Bispo BarretosRezemos para que o Senhor não permita que a corrupção prevaleça sobre a justiça; mas, ao contrário, que a justiça e a solidariedade com os pequenos e fracos tornem-se critérios para colaborarmos na construção de uma nação, “cujo Deus é o Senhor!” (Sl 33,12).

Aproveito a oportunidade para desejar a todos vocês abundantes graças ao aproximarem-se do sacramento da Reconciliação; e aos sacerdotes, graças também para acolher os penitentes e encaminha-los para o Senhor! Recordo-lhes que a Missa do Crisma, neste ano, deverá ocorrer na noite da Terça-feira Santa, dia 31 de março, na Catedral; e que, no Domingo de Ramos deverá realizar-se em todas as paróquias e comunidades da diocese a Coleta da Solidariedade em favor dos projetos sociais da CNBB e de nossa diocese.

Na noite do sábado, dia 28 de março, também na Catedral, ocorre a Jornada da Juventude com o tema: “Felizes os puros de coração” (Mt 5, 8).

Esperamos a presença dos jovens de toda a nossa diocese nesta manifestação de fé e ao mesmo tempo alegria em torno da bem-aventurança proclamada pelo próprio Jesus, que nos é proposta pelo Papa Francisco para a preparação dos jovens para a Jornada Mundial de Juventude que ocorrerá em julho de 2016, em Cracóvia (Polônia).

Esperando reencontrá-los ainda antes da Páscoa, para manifestar-lhes os meus votos pascais, atenho-me aqui a desejar-lhes um renovado entusiasmo no tempo que nos resta da Quaresma para que, chegando à celebração dos mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, sejamos de fato transformados, livres de toda corrupção, transfigurados pela luz do Senhor!

Em Cristo Jesus, despeço-me,

+ Milton Kenan Junior

Bispo de Barretos

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