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Descasamentos Necessários, escreve Karina Younan

* Karina Younan —A vida a dois exige renúncias rigorosas, que talvez a idade não nos permita calcular apropriadamente ou o amor camufle propositadamente, em benefício da perpetuação da espécie. Mas a conta é infalível, o desgaste inevitável.

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Vejo pessoas sofridas, se esforçando para manterem seus relacionamentos. Tentando ampliar sua compreensão e, principalmente, tentando se colocar no lugar do outro também. Infelizmente a psicoterapia aparece como o último recurso de almas esgotadas ou auxilio para o doloroso processo de separação.

Muitas vezes a pessoa que está ali não veio me procurar, ela quer encontrar a si mesma. A pessoa que ela foi… a que ela queria ser. E aonde é que se perdeu?

A pergunta muitas vezes nem é expressa, o corpo da pessoa me diz: quanto é necessário aguentar? Quando a gente sabe que não dá mais e que está na hora de se separar?

A filosofia não me permite respostas taxativas- os relacionamentos, como os humanos, são únicos. E a experiência me diz que essa hora nunca chega, as separações não são decisões sábias e tranquilas. A separação é um esgotamento.

Só quem passou pelo processo entende que ele retira a pessoa de um estado de solidão, e quem abandona um casamento se sentiu muito abandonado também. Os descasamentos são necessários, a falta de afeto machuca à conta gotas.

Descasar muitas vezes rejuvenesce, numa recuperação pessoal evidente. É possível sentir extrema solidão nos relacionamentos, o divórcio elimina a camuflagem. Estando fisicamente sozinhos, passamos a procurar por companhia… A verdadeira companhia, aquela que traz com ela disposição para o que eu penso, sinto ou quero.

As separações poderiam ser evitadas, com a busca precoce de auxilio e reflexão, com os filtros que impediriam a intoxicação familiar e os sacrifícios pessoais, com a versatilidade do comportamento, a sensibilidade acentuada e a firme negociação. Como pregam os preceitos orientais do Yin e Yang- se conseguíssemos absorver um pouco de separação em cada casamento, e um pouco do casamento em cada separação.

Todo divórcio se beneficiaria se as pessoas mantivessem o ideal de cuidar da família que se formou em seu entorno, mantivessem o contato e a preservação da estrutura e da rotina que o casamento propicia. Se o zelo pelo patrimônio conquistado não permitisse tantos estragos.

E todo casamento deveria manter um misto de separação, na individualidade dos hobbies, na urgência da boa forma, na atualização do guarda roupa, na não necessária integração com a família do outro, na aceitação dos valores, no interesse em se integrar aos amigos. Não dá pra suportar a obrigação de realizar o outro como pessoa.

Pra quem notou o valor do tempo, e da perda de tempo, o entendimento é de que relacionamento só vale a pena se melhorar o ânimo, se os dois ganharem, se deixar cada um, um pouco melhor.

* Karina Younan é Psicóloga e docente de Pós-Graduação da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp)

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